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Uma infância marcada pela luta pela sobrevivência na Faixa de Gaza

Uma infância marcada pela luta pela sobrevivência na Faixa de Gaza

GENEBRA

16 out 2026

Resumo das declarações do porta-voz da UNICEF, Ricardo Pires, na conferência de imprensa de hoje, no Palácio das Nações, em Genebra. As citações podem ser-lhe atribuídas.

“Nas últimas duas semanas, em Gaza, apesar do cessar-fogo acordado, foi reportada a morte de cinco rapazes e duas raparigas e pelo menos 33 crianças ficaram gravemente feridas em ataques aéreos, ataques com drones e disparos em toda a Faixa. Outros dois rapazes morreram devido a ferimentos sofridos anteriormente.

“Pouco mais de um ano após o anúncio do cessar-fogo, foi reportada a morte de mais de 340 crianças e centenas de outras ficaram feridas.

“Sobretudo para as famílias que choram a perda dos seus filhos, estas estatísticas terríveis não correspondem ao que a maioria das pessoas entende por um cessar-fogo.

“Um novo relatório da UNICEF, divulgado hoje, expõe o enorme custo humano de uma guerra que continua a devastar as crianças, roubando-lhes a vida, a infância e o futuro.

“Cerca de 800 mil crianças continuam deslocadas e a maioria vive em tendas ou em edifícios bombardeados que não oferecem segurança.

“Estima-se que 60 mil crianças em Gaza tenham perdido um ou ambos os pais durante a guerra ou desde o início do cessar-fogo.

“Quase todas as crianças precisam de algum tipo de apoio de saúde mental para as ajudar a recuperar.

“Agora, quando nos aproximamos novamente do inverno, estas crianças enfrentam um quarto ano de luta pela sobrevivência em condições extremas. Tendas danificadas, falta de saneamento e famílias amontoadas em qualquer espaço onde consigam improvisar uma casa.

“Embora o cessar-fogo tenha permitido a entrada de mais ajuda humanitária e de bens comerciais na Faixa, e a situação de segurança alimentar tenha melhorado, para as crianças em Gaza as consequências da guerra fazem-se sentir em todos os aspetos da vida quotidiana: onde dormem, o que comem, se podem aprender, se se sentem suficientemente seguras para brincar e se as pessoas que amam continuam ao seu lado.

“É o caso de uma adolescente de 16 anos que os meus colegas conheceram recentemente. A mãe foi atingida a tiro quando estava grávida de oito meses. Deu à luz e morreu no dia seguinte. O pai tem uma deficiência, pelo que a adolescente cuida agora da irmã de um ano, por quem assume toda a responsabilidade sozinha. Passa os dias a arrumar a casa, a cozinhar e a brincar com a irmã. Os outros três irmãos frequentam um centro de aprendizagem apoiado pela UNICEF e ela ajuda-os a estudar depois das aulas, o que, nas suas palavras, significa que «talvez ainda possam ter um futuro».

“Desde o início do cessar-fogo, mais de 560 mil crianças retomaram a aprendizagem, incluindo em mais de 200 centros de aprendizagem apoiados pela UNICEF. Este ano, prestámos assistência monetária a mais de 380 mil pessoas - um apoio vital - e continuamos a fornecer água potável a 1,2 milhões de pessoas, a par da remoção de resíduos sólidos e da entrega de material médico.

“Este trabalho é essencial e salva vidas. Mas está longe de repor os serviços nas condições necessárias, como no caso das redes e dos sistemas de saneamento. As seis estações de tratamento de águas residuais continuam sem funcionar.

“A maior parte dos esgotos não tratados é bombeada diretamente para o mar, afetando vários quilómetros de costa. Existem grandes acumulações de águas residuais, como na bacia de retenção de águas pluviais de Sheikh Radwan, que está a metade da sua capacidade. Com a rápida aproximação das chuvas de inverno, o tempo para retirar esta água por bombagem está a esgotar-se.

“Tal como alertámos há um ano, a água contaminada pode transbordar e inundar zonas residenciais próximas, com consequências potencialmente fatais para as crianças e as suas famílias. Já houve crianças que morreram afogadas em água contaminada por esgotos.

“A bacia pode ser esvaziada em duas semanas, mas Israel ainda não autorizou a entrada em Gaza do equipamento necessário.

“As necessidades são enormes e o financiamento está muito aquém do necessário. É precisamente por isso que recursos e financiamento flexíveis, previsíveis e continuados são essenciais para conseguirmos chegar às crianças e às famílias.

“As famílias que vivem em abrigos danificados e em locais sobrelotados de acolhimento de pessoas deslocadas estão cada vez mais preocupadas com a sobrevivência dos seus filhos perante o frio intenso e a chuva.

“Mas, apesar de tudo, as crianças, como sempre, mantêm a esperança. O sonho desta adolescente é ser farmacêutica. Não desistiu dele, mas não acredita que se venha a concretizar.

“O futuro que as crianças de Gaza desejam é um futuro em que possam simplesmente viver a sua infância, como é seu direito. Para que isso se torne realidade, as crianças precisam de um verdadeiro cessar-fogo e da plena implementação do plano de paz, agora.

“As crianças precisam de segurança e proteção, quer estejam na Faixa de Gaza, na Cisjordânia ou em Israel.

“As crianças precisam de recuperar, de começar a sarar as suas feridas, de regressar a uma vida normal.

“Para isso, os Estados-Membros (das Nações Unidas) têm de colocar as crianças em primeiro lugar.

“Para isso, as autoridades israelitas têm de permitir a entrada dos materiais, equipamentos e meios técnicos necessários para reabilitar as infraestruturas e restabelecer os serviços essenciais. Sem a entrada de peças sobresselentes, geradores e óleo de motor em quantidade suficiente, nem sequer será possível manter os serviços que ainda estão a funcionar.

“É necessário que as partes no conflito respeitem os termos do cessar-fogo, a Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas e as suas obrigações ao abrigo do direito internacional humanitário.

“Acima de tudo, precisamos de ouvir as vozes das crianças em Gaza.

“Para as crianças, recuperar significa regressar à escola, passar tempo com amigos e familiares, ter um abrigo digno que preserve a sua dignidade, brincar em segurança, receber cuidados de saúde quando precisam e recuperar uma sensação de estabilidade e a vivência quotidiana da infância.

“É este o futuro que as crianças palestinianas devem ter.

“As crianças de Gaza já sofreram demasiado, durante demasiado tempo.”

Para mais informação, é favor contactar:
Catarina da Ponte | Vera Lança | press@unicef.pt

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