Fome no mundo disparou em ano de pandemia, diz novo relatório das Nações Unidas
ROMA/NOVA IORQUE/LISBOA
12 jul 2021
África foi o continente onde o aumento da fome foi mais acentuado.
O mundo está num momento crítico e é necessário agir já para que os objectivos 2030 possam ser cumpridos. Em 2020 um décimo da população mundial – cerca de 811 milhões de pessoas – pode ter estado, em algum momento, em situação de subnutrição.
Em 2020 registou-se um agravamento dramático da fome no mundo, segundo indicaram hoje as Nações Unidas. Este aumento da fome está provavelmente relacionado com as consequências da COVID-19. Embora o impacto da pandemia ainda não tenha sido totalmente mapeado[i], um relatório conjunto de várias agências da ONU estima que cerca de um décimo da população mundial – cerca de 811 milhões de pessoas – esteve, em algum momento, em situação de subnutrição no ano passado. O número sugere que será necessário um esforço tremendo para que o mundo honre a sua promessa de acabar com a fome até 2030, conforme definido pelo Objectivo para o Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2 - Fome Zero até 2030.
Em 2020 a fome disparou tanto em termos absolutos como proporcionais, ultrapassando o crescimento populacional: estima-se que cerca de 9,9% de todas as pessoas tenham estado subnutridas no ano passado, contra 8,4% em 2019. Mais de metade de todas as pessoas subnutridas (418 milhões) vive na Ásia; mais de um terço (282 milhões) em África; e uma proporção menor (60 milhões) na América Latina e nas Caraíbas. Mas o aumento mais acentuado da fome verificou-se em África, onde a prevalência estimada da subnutrição - de 21% da população - é mais do dobro de qualquer outra região.
Também noutras métricas, 2020 foi um ano sombrio. No total, mais de 2,3 mil milhões de pessoas (ou 30% da população mundial) não tiveram acesso a alimentos adequados durante todo o ano: este indicador - conhecido como prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave - disparou tanto num único ano como nos cinco anteriores combinados. A desigualdade de género agravou-se: para cada 10 homens em situação de insegurança alimentar, havia 11 mulheres na mesma condição em 2020 (contra 10,6 em 2019).
A subnutrição persistiu em todas as suas formas, com as crianças a pagarem um preço elevado: em 2020, estima-se que mais de 149 milhões de crianças com menos de cinco anos estiveram em situação subdesenvolvimento físico (demasiado pequenas para a sua idade); mais de 45 milhões demasiado magras para a sua altura; e quase 39 milhões - com excesso de peso[ii]. Um total de três mil milhões de adultos e crianças ficaram excluídos de acesso a dietas saudáveis, em grande parte devido a custos elevados. Quase um terço das mulheres em idade reprodutiva sofre de anemia. Apesar dos progressos em algumas áreas, o mundo não está no bom caminho para atingir os objectivos de quaisquer indicadores nutricionais até 2030 - mais bebés até um ano de idade, por exemplo, estão a ser alimentados exclusivamente com leite materno, quando a recomendação da OMS é a introdução alimentar a partir dos seis meses.
Publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), o relatório “The State of Food Security and Nutrition in the World - SOFI -” (O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo) deste ano é a primeira avaliação global do seu género desde o início da pandemia.
As edições anteriores do SOFI já tinham lançado o alerta ao mundo sobre a ameaça da insegurança alimentar de milhões de pessoas – entre as quais muitas crianças. "Infelizmente, a pandemia continua a expor as fraquezas dos nossos sistemas alimentares, que ameaçam a vida e a subsistência de pessoas em todo o mundo", escrevem os chefes das cinco agências da ONU no Prefácio[iii] da publicação.
Continuam com um alerta para um "momento crítico", mesmo quando depositam novas esperanças no aumento da dinâmica diplomática. "Este ano traz uma oportunidade única para fazer avançar a segurança alimentar e a nutrição através da transformação dos sistemas alimentares com a realização da próxima Cimeira das Nações Unidas dedicada aos Sistemas Alimentares, da Cimeira sobre Nutrição para o Crescimento, e da COP26 sobre alterações climáticas". "O resultado destes eventos", acrescentam os cinco, "continuará a moldar a [...] segunda metade da Década de Acção da ONU sobre Nutrição" - um compromisso político global ainda a dar os seus passos.
Outras causas da fome e da subnutrição
Em muitas partes do mundo, a pandemia desencadeou recessões brutais e comprometeu o acesso a alimentos. No entanto, mesmo antes da pandemia, a fome já estava a alastrar; o progresso em matéria de subnutrição sofreu retrocessos. Esta realidade foi ainda mais acentuada em países afectados por conflitos, desastres climáticos ou outros tipos de recessões económicas, ou nos quais existe desigualdade elevada – todos estes factores foram identificados no relatório como os principais motores da insegurança alimentar, que por sua vez, estão interligados[iv].
Sobre as tendências actuais, o relatório SOFI calcula que o ODS 2 irá falhar por uma margem de quase 660 milhões de pessoas. Destes 660 milhões, cerca de 30 milhões poderão estar ligados aos efeitos duradouros da pandemia.
O que pode (ainda) ser feito
Tal como indicado no relatório do ano passado, a transformação dos sistemas alimentares é essencial para alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e colocar dietas saudáveis ao alcance de todos. A edição deste ano vai mais longe para delinear seis "vias de transformação". Estas, dizem os autores, dependem de um "conjunto coerente de acções políticas e de investimento" para contrariar os factores da fome e da subnutrição.
Dependendo do factor particular (ou combinação de factores) que cada país enfrenta, o relatório insta os decisores políticos a:
- Integrar políticas humanitárias, de desenvolvimento e de construção da paz em áreas de conflito - por exemplo, através de medidas de protecção social para evitar que as famílias vendam bens escassos em troca de alimentos;
- Aumentar a resiliência climática através dos sistemas alimentares - por exemplo, oferecendo aos pequenos agricultores acesso amplo a seguros sobre risco climático e ao financiamento baseado em previsões;
- Reforçar a resiliência dos mais vulneráveis à adversidade económica - por exemplo, através de programas de apoio em espécie ou em dinheiro para diminuir o impacto de choques, como o foi a pandemia, ou a volatilidade dos preços dos alimentos;
- Intervir ao longo das cadeias de abastecimento para reduzir o custo dos alimentos nutritivos - por exemplo, fomentando a plantação de culturas bio fortificadas ou facilitando o acesso dos produtores de fruta e legumes aos mercados;
- Enfrentar a pobreza e as desigualdades estruturais - por exemplo, impulsionando cadeias de valor alimentar em comunidades pobres através de transferências de tecnologia e programas de certificação;
- Fortalecer ambientes alimentares e alterar o comportamento dos consumidores - por exemplo, eliminando gorduras industriais trans e reduzindo o teor de sal e açúcar no abastecimento alimentar, ou protegendo as crianças do impacto negativo da comercialização de alimentos.
O relatório também apela a um "ambiente propício aos mecanismos e instituições de governação" para tornar possível a transformação, instando os decisores políticos a efectuarem consultas amplas; a capacitarem as mulheres e os jovens; e a expandirem a disponibilidade de dados e de novas tecnologias. Acima de tudo, os autores exortam o mundo a agir agora - ou corremos o risco de os factores de fome e subnutrição voltarem com intensidade crescente nos próximos anos, muito depois de o choque da pandemia ter passado.
Nota:
A publicação do The State of Food Security and Nutrition in the World coincide com o lançamento de uma campanha da UNICEF Portugal para a recolha de fundos destinados a combater a subnutrição infantil. Esta campanha narra a história de Omara, uma bebé subnutrida que beneficiou do apoio da UNICEF e recebeu tratamento adequado com alimentos altamente nutritivos. Omara é apenas a cara de uma de quase 150 milhões de crianças menores de cinco anos subnutridas no mundo.
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[i] Para reflexão sobre a incerteza adicional induzida pela pandemia, a edição deste ano apresenta pela primeira vez um intervalo (720 milhões a 811 milhões) em vez de um único número de destaque. Para as desagregações regionais, é utilizado o número de 768 milhões - a estimativa média. Quer se considere o valor inferior, médio ou superior do intervalo, o aumento anual ao longo do número médio do intervalo de 2019 de 650 milhões é substancial. No extremo superior, este aumento é de 161 milhões. (Toda a série histórica é revista anualmente de acordo com os novos dados).
[ii] As regras de distanciamento social tornaram excepcionalmente difícil a recolha de dados nutricionais em 2020. Alguns números - especialmente sobre crianças com baixo peso para a sua altura - podem ser superiores a estas estimativas.
[iii] FAO - Qu Dongyu, Director-Geral; FIDA - Gilbert F. Houngbo, Presidente; UNICEF - Henrietta H. Fore, Directora Executiva; PAM - David Beasley, Director Executivo; OMS - Tedros Adhanom Ghebreyesus, Director-Geral.
[iv] Quanto mais factores um país apresentar, pior será a situação de subnutrição, maior será a insegurança alimentar, e mais proibitivo será o custo de dietas saudáveis para os seus cidadãos.
Para mais informação, é favor contactar:
Vera Lança
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