Mulheres e raparigas suportam o peso da crise da água e do saneamento, diz novo relatório da UNICEF e da OMS
NOVA IORQUE/GENEBRA/LISBOA
06 jul 2023
COMUNICADO À IMPRENSA CONJUNTO | UNICEF & OMS
Mulheres e raparigas são responsáveis por transportar água em 70% dos agregados familiares sem abastecimento no local de residência, de acordo com a primeira análise aprofundada sobre as desigualdades de género em matéria de água, higiene e saneamento (WASH) nos agregados familiares
Globalmente, é mais provável que as mulheres sejam responsáveis por ir buscar água para os seus agregados familiares, enquanto as raparigas têm quase o dobro da probabilidade do que os rapazes de assumirem essa responsabilidade, e passam mais tempo a fazê-lo todos os dias, de acordo com o novo relatório divulgado hoje pela UNICEF e pela OMS.
O relatório “Progress on household drinking water, sanitation and hygiene (WASH) 2000-2022: Special focus on gender” - que fornece a primeira análise aprofundada das desigualdades de género em matéria de WASH - também observa que as mulheres e as raparigas são mais propensas a sentir-se inseguras ao utilizarem uma casa de banho fora de casa e sentem desproporcionalmente o impacto da falta de higiene.
"Cada passo que uma rapariga dá para ir buscar água é um passo que a afasta da aprendizagem, do brincar e de estar em segurança", diz Cecilia Sharp, Diretora da UNICEF para WASH e CEED (Clima, Energia, Ambiente e Redução de Risco de Desastres [Climate, Energy and Enviroment and Disaster Risk Reduction]). "A falta de água potável, de casas de banho e de condições para a lavagem das mãos em casa priva as raparigas de acederem ao seu potencial, compromete o seu bem-estar e perpetua os ciclos de pobreza. Responder às necessidades das raparigas com a criação e implementação de programas WASH é fundamental para alcançar o acesso universal à água e ao saneamento, e alcançar a igualdade de género e a capacitação das mulheres e das raparigas."
De acordo com o relatório, a nível mundial, 1,8 mil milhões de pessoas vivem em agregados familiares sem abastecimento de água nas habitações. As mulheres e as raparigas com idade igual ou superior a 15 anos são as principais responsáveis pela recolha de água em 7 em cada 10 desses agregados familiares, em comparação com 3 em cada 10 agregados familiares no que se refere aos seus pares masculinos. As raparigas com menos de 15 anos (7%) também têm mais probabilidades de transportar água do que os rapazes com menos de 15 anos (4%). Na maior parte dos casos, as mulheres e as raparigas fazem viagens mais longas para ir buscar água, perdendo tempo que alocariam à educação, emprego e tempos livres; além disso, esta atividade coloca-as em risco de lesões físicas e de perigos no caminho.
O relatório evidencia também que mais de 500 milhões de pessoas ainda partilham instalações sanitárias com outras famílias, comprometendo a privacidade, a dignidade e a segurança das mulheres e das raparigas. Por exemplo, inquéritos recentes em 22 países mostram que, entre os agregados familiares com casas de banho partilhadas, as mulheres e as raparigas são mais propensas do que os homens e os rapazes a sentirem-se inseguras ao caminharem para esse local sozinhas à noite e a enfrentarem assédio sexual e outras situações de risco.
Além disso, os serviços de WASH inadequados aumentam os riscos para a saúde das mulheres e das raparigas e limitam a sua capacidade de gerir os seus ciclos menstruais de forma segura e em privado. Entre os 51 países com dados disponíveis, as mulheres e as raparigas adolescentes nos agregados familiares mais pobres e as pessoas com deficiência são as mais propensas a não ter um lugar privado para se lavar e mudar de roupa.
"Os dados mais recentes da OMS mostram uma dura realidade: todos os anos morrem 1,4 milhões de pessoas devido à falta água, e às condições inadequadas de higiene e saneamento", afirmou Maria Neira, Diretora do Departamento de Ambiente, Alterações Climáticas e Saúde da OMS. "As mulheres e as raparigas não só enfrentam doenças infeciosas relacionadas com o WASH, como a diarreia e as infeções respiratórias agudas, como também enfrentam riscos adicionais para a saúde porque estão vulneráveis ao assédio, à violência e aos acidentes causados pelo facto de terem de sair de casa para ir buscar água ou apenas para usar a casa de banho."
Os resultados mostram ainda que a falta de acesso a condições adequadas de higiene também afeta de forma desproporcionada as mulheres e as raparigas. Em muitos países, as mulheres e as raparigas são as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e pela prestação de cuidados a outras pessoas - incluindo a limpeza, a preparação de alimentos e a assistência aos doentes - o que provavelmente as expõe a doenças e a outros riscos para a sua saúde sem a proteção da lavagem das mãos. O tempo adicional gasto em tarefas domésticas também pode limitar as hipóteses de as raparigas concluírem o ensino secundário e conseguirem emprego.
Atualmente, cerca de 2,2 mil milhões de pessoas - ou seja, 1 em cada 4 - ainda não dispõem de água potável em casa e 3,4 mil milhões de pessoas - ou seja, 2 em cada 5 - não dispõem de saneamento básico seguro. Cerca de 2 mil milhões de pessoas - ou seja, 1 em cada 4 - não podem lavar as mãos com água e sabão em casa.
O relatório regista alguns progressos no sentido de se alcançar o acesso universal ao WASH. Entre 2015 e 2022, o acesso das famílias à água potável gerida com segurança aumentou de 69% para 73%; o saneamento gerido com segurança aumentou de 49% para 57%; e os serviços básicos de higiene aumentaram de 67% para 75%.
Mas, para atingir a meta do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável de acesso universal a água potável gerida com segurança, saneamento e serviços básicos de higiene até 2030, será necessário aumentar seis vezes as atuais taxas de progresso para a água potável gerida com segurança e aumentar cinco vezes o saneamento gerido com segurança e três vezes os serviços básicos de higiene.
São necessários mais esforços para garantir que os progressos em matéria de WASH contribuam para a igualdade de género, incluindo considerações integradas de género nos programas e políticas de WASH e recolha e análise de dados desagregados, no sentido de fundamentar intervenções específicas que respondam às necessidades particulares das mulheres e raparigas e de outros grupos sem situação de maior vulnerabilidade.
A UNICEF Portugal lançou recentemente o Apelo “A Última Gota: Doe Água” destinado a colmatar os efeitos das alterações climáticas na vida das crianças, que são as que mais sofrem com falta de água. Estima-se que, dos cerca de 2 mil milhões de pessoas sem acesso a água potável a nível global, 600 milhões são crianças.
PARA AJUDAR A UNICEF NA SUA RESPOSTA HUMANITÁRIA:
Online https://donativos.unicef.pt/campanha/doe-agua
MBWay – 919 919 939
***
Notas:
O relatório do Programa de Monitorização Conjunta (JMP) da UNICEF e da OMS - “Progress on household drinking water, sanitation and hygiene (WASH) 2000-2022: Special focus on gender” - compila dados sobre o progresso global para se conseguir o acesso universal à água potável segura, ao saneamento e à higiene (WASH), incluindo dados emergentes sobre a saúde e a higiene menstruais. Pela primeira vez, o relatório fornece uma análise aprofundada das desigualdades de género, destacando os riscos que as mulheres e as raparigas enfrentam devido ao acesso inadequado ao WASH seguro nos países para os quais as estatísticas nacionais estão disponíveis.
Aceda ao relatório e aos dados aqui.
Para mais informação, é favor contactar:
Vera Lança
press@unicef.pt
Acerca da UNICEF
A UNICEF trabalha em alguns dos lugares mais difíceis do mundo para chegar às crianças mais desfavorecidas. Presentes em 190 países e territórios, trabalhamos para todas as crianças, em qualquer parte, para construirmos um mundo melhor para todos.
A UNICEF é a única organização da ONU que depende inteiramente de contribuições voluntárias, públicas e privadas.
Para saber mais sobre a UNICEF e o seu trabalho para as crianças, visite: www.unicef.pt
Acerca da OMS
Dedicada ao bem-estar de todas as pessoas e guiada pela ciência, a Organização Mundial de Saúde lidera e defende os esforços globais para proporcionar a todos, em todo o lado, uma oportunidade igual de ter uma vida segura e saudável. Somos a agência da ONU para a saúde que liga nações, parceiros e pessoas na linha da frente em mais de 150 locais - liderando a resposta mundial a emergências de saúde, prevenindo doenças, abordando as causas profundas dos problemas de saúde e expandindo o acesso a medicamentos e cuidados de saúde. A nossa missão é promover a saúde, manter o mundo seguro e servir os vulneráveis. Para mais informações, visite www.who.int
Acerca do JMP
O Programa de Monitorização Conjunta (JMP) da OMS/UNICEF para o Abastecimento de Água, Higiene e Saneamento é responsável por monitorizar o progresso global em direção às metas e indicadores dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável relacionados com a água potável, a higiene e o saneamento (WASH). O JMP produz estimativas nacionais, regionais e globais do progresso em matéria de WASH nos agregados familiares, escolas e instalações de cuidados de saúde.