Quase 250 milhões de crianças sofreram interrupções na educação em 2024 devido a crises climáticas
NOVA IORQUE/LISBOA
24 jan 2025
Portugal registou mais de 16 000 estudantes afetados por interrupções escolares devido a incêndios florestais.
Portugal registou mais de 16 000 estudantes afetados por interrupções escolares devido a incêndios florestais.
Em 2024, pelo menos 242 milhões de estudantes em 85 países viram a sua educação interrompida devido a fenómenos climáticos extremos, como ondas de calor, ciclones tropicais, tempestades, inundações e secas. Estes fenómenos intensificaram ainda mais os desafios já existentes no setor da educação, segundo uma nova análise divulgada hoje pela UNICEF.
O relatório intitulado “Learning Interrupted: Global Snapshot of Climate-Related School Disruptions in 2024”, publicado no âmbito do Dia Internacional da Educação, apresenta, pela primeira vez, uma análise dos riscos climáticos que causaram o encerramento de escolas ou interrupções significativas nos calendários escolares. O documento destaca, ainda, o impacto destas perturbações nas crianças, abrangendo desde o ensino pré-escolar até ao ensino secundário.
Portugal registou, em 2024, 16 093 estudantes afetados por interrupções escolares devido a incêndios florestais, segundo o relatório. Este fenómeno climático, agravado pelas alterações climáticas, tem causado impactos significativos na educação, desde a destruição de infraestruturas escolares até à suspensão de aulas por razões de segurança. Além de limitar o acesso à educação, os incêndios florestais afetam o bem-estar físico e emocional das crianças, acentuando desigualdades já existentes e ameaçando o futuro de milhares de estudantes
Globalmente, as ondas de calor foram identificadas como o principal risco climático em 2024, dando origem ao encerramento de escolas e afetando mais de 118 milhões de estudantes apenas no mês de abril. Nesse período, o Bangladesh e as Filipinas enfrentaram encerramentos generalizados de escolas, enquanto no Camboja os horários escolares foram reduzidos em duas horas diárias. Em maio, as temperaturas na Ásia do Sul subiram para valores superiores a 47°C em algumas áreas, aumentando o risco de insolação nas crianças.
“As crianças são especialmente vulneráveis aos efeitos das crises climáticas, nomeadamente ondas de calor, tempestades, secas e inundações, que têm vindo a tornar-se cada vez mais intensas e frequentes”, afirmou Catherine Russell, Diretora Executiva da UNICEF. “O corpo das crianças aquece mais rapidamente, transpira de forma menos eficiente e arrefece mais lentamente do que o dos adultos. Em salas de aula sem proteção contra o calor extremo ou em zonas onde os caminhos para a escola estão inundados, as crianças não conseguem aprender. No último ano, um em cada sete estudantes não pôde frequentar a escola devido a condições meteorológicas extremas, que não só colocam em risco a sua saúde e segurança, como também impactam negativamente a sua educação a longo prazo”.
Alguns países enfrentaram múltiplas perturbações climáticas no ano passado. No Afeganistão, por exemplo, além das ondas de calor, graves inundações em maio destruíram mais de 110 escolas, interrompendo as aulas de milhares de estudantes.
As perturbações mais frequentes ocorreram em setembro, um momento crucial para o início do ano letivo em muitas partes do mundo. Pelo menos 16 países tiveram que suspender as aulas devido a condições meteorológicas extremas, incluindo o tufão Yagi, que afetou 16 milhões de crianças na Ásia Oriental e no Pacífico.
A análise da UNICEF revela que o sul da Ásia foi a região mais afetada pelas interrupções na educação relacionadas com o clima, com 128 milhões de estudantes impactados, enquanto 50 milhões de estudantes em toda a Ásia Oriental sofreram perturbações semelhantes. O fenómeno El Niño continuou a causar efeitos devastadores em África, com chuvas torrenciais e inundações frequentes na África Oriental e secas severas em várias áreas da África Austral.
O aumento das temperaturas, tempestades, inundações e outros perigos climáticos podem danificar infraestruturas escolares, dificultar o acesso às escolas, comprometer a segurança dos ambientes de aprendizagem e afetar a concentração, memória e saúde física e mental dos estudantes.
Em contextos de fragilidade, o encerramento prolongado de escolas reduz a probabilidade de os alunos regressarem à sala de aula, expondo-os a riscos acrescidos, como o trabalho infantil ou o casamento precoce. Estes impactos recaem de forma desproporcional sobre as meninas, aumentando as probabilidades de abandono escolar e expondo-as a um risco acrescido de violência de género, tanto durante como após os desastres.
Os sistemas educativos, já fragilizados, enfrentam desafios adicionais devido a fenómenos climáticos. A falta de professores qualificados, o excesso de alunos nas salas de aula e as desigualdades no acesso e qualidade da educação são problemas que a crise climática tem vindo a agravar.
De acordo com o relatório, 74% dos estudantes afetados no ano passado viviam em países de rendimentos baixos ou médios-baixos, mas nenhuma região está imune a esta realidade. Em Itália, chuvas torrenciais e inundações em setembro de 2024 perturbaram as aulas de mais de 900.000 estudantes. Em Espanha, as inundações ocorridas em outubro afetaram a educação de cerca de 13.000 crianças.
As escolas e sistemas educativos, em geral, não estão devidamente preparados para proteger os estudantes contra estas perturbações, e o relatório conclui que os investimentos financeiros centrados no clima no setor da educação continuam baixos.
A UNICEF trabalha em parceria com governos e aliados para apoiar a adaptação climática e a construção de infraestruturas escolares resilientes que protejam as crianças contra fenómenos meteorológicos extremos. Em Moçambique, onde os ciclones são recorrentes, mais de 150.000 estudantes foram afetados pelos ciclones Chido e Dikeledi nos últimos dois meses. Em resposta, a UNICEF apoiou a construção de mais de 1.150 salas de aula resistentes ao clima em cerca de 230 escolas.
A UNICEF apela aos líderes globais e ao setor privado para que tomem medidas urgentes que protejam as crianças dos crescentes efeitos das alterações climáticas, incluindo:
- Garantir que os planos climáticos nacionais reforcem serviços sociais cruciais, como a educação, tornando-os mais resilientes e adaptados ao clima.
- Investir em instalações educativas resilientes a desastres e ecologicamente sustentáveis.
- Acelerar o financiamento para melhorar a resiliência do setor educativo ao clima.
- Integrar explicitamente a educação sobre alterações climáticas nos currículos nacionais.
“A educação é um dos serviços mais afetados pelas perturbações causadas por fenómenos climáticos, mas é frequentemente ignorada nos debates políticos, apesar do seu papel essencial na preparação das crianças para se adaptarem às alterações climáticas”, disse Catherine Russell. “O futuro das crianças deve estar no centro de qualquer planeamento e ação climática”.
Para mais informação, é favor contactar:
Catarina da Ponte | Vera Lança | press@unicef.pt
Sobre a UNICEF
A UNICEF trabalha em algumas das regiões mais difíceis do mundo para alcançar as crianças mais desfavorecidas. Presentes em mais de 190 países e territórios, trabalhamos para todas as crianças com o objetivo de construir um mundo melhor para todos.
A UNICEF depende inteiramente de contribuições voluntárias, públicas e privadas.
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