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Pobreza infantil: “quando falamos de pobreza, falamos também de saúde, habitação, educação, bem-estar e participação social”

Pobreza infantil: “quando falamos de pobreza, falamos também de saúde, habitação, educação, bem-estar e participação social”

LISBOA

01 out 2026

UNICEF Portugal e Casa do Parlamento reuniram especialistas, jovens e deputados para discutir o impacto da pobreza e do aumento do custo de vida, e as respostas necessárias para garantir igualdade de oportunidades. Participantes defenderam uma abordagem multidimensional da pobreza infantil, com respostas articuladas nas áreas da proteção social, educação, saúde, habitação e emprego, e sublinharam a importância de ouvir crianças e jovens nas decisões que afetam as suas vidas.

A pobreza e o aumento do custo de vida estiveram no centro da segunda conferência de 2026 do ciclo Tenho Voto na Matéria, promovida pela UNICEF Portugal e pela Casa do Parlamento. Realizada esta terça-feira, a iniciativa reuniu especialistas, jovens e deputados para discutir o impacto das dificuldades económicas no quotidiano das famílias e as respostas necessárias para garantir os direitos e as oportunidades de todas as crianças

Lançado em 2021, o Tenho Voto na Matéria é um projeto da UNICEF Portugal que tem como objetivo colocar as crianças e os jovens no centro do debate público, dando espaço às suas preocupações e propostas e promovendo o diálogo com especialistas e decisores políticos. É neste âmbito que a UNICEF Portugal, em parceria com a Casa do Parlamento, promove um ciclo de conferências dedicado a alguns dos temas que mais diretamente impactam a vida das crianças e dos jovens. Depois de, em abril, ter colocado a saúde mental no centro da discussão, a segunda conferência de 2026 aborda a pobreza e o aumento do custo de vida. O ciclo encerra em outubro, com uma conferência dedicada à discriminação.

A sessão teve início com as intervenções de Beatriz Imperatori, Diretora Executiva da UNICEF Portugal, e Ana Gaspar, Adjunta da Secretária-Geral da Assembleia da República, que sublinharam a importância de criar espaços de diálogo que aproximem os jovens dos especialistas e dos decisores políticos e que permitam que as suas preocupações e propostas sejam efetivamente consideradas no debate público.

Beatriz Imperatori alertou para o facto de a pobreza infantil não poder ser reduzida à dimensão económica, uma vez que condiciona diferentes oportunidades e dimensões da vida das crianças e jovens: “quando falamos de pobreza infantil, estamos a falar de algo que vai muito além dos rendimentos de uma família”. Para a Diretora Executiva da UNICEF Portugal estão também em causa “as oportunidades que uma criança deixa de ter para aprender, brincar, conviver, desenvolver os seus talentos e imaginar o seu futuro”. Recordou que, em 2024, 17,6% das crianças e jovens com menos de 18 anos estavam em risco de pobreza em Portugal, uma taxa superior à registada para a população total (15,4%). A pobreza infantil refletia-se também nas condições de vida e nas oportunidades das crianças: mais de um terço vivia em alojamentos sobrelotados, uma em cada duas não participava regularmente em atividades extracurriculares ou de lazer e quase uma em cada seis famílias com crianças em situação de pobreza não conseguia assegurar uma alimentação saudável e nutritiva.

É neste contexto que, para a UNICEF Portugal, a pobreza infantil deve ser entendida como uma realidade multidimensional, com impacto nas condições de vida presentes e nas oportunidades futuras das crianças. Beatriz Imperatori destacou que o tema “pobreza e custo de vida” surgiu, pela primeira vez, em 2025, entre os que mais preocupam as crianças e jovens que participam no Tenho Voto na Matéria, o que evidencia que as dificuldades económicas das famílias têm impacto nas suas vidas, escolhas e oportunidades: “quando falamos de pobreza, falamos também de saúde, de habitação, de educação, de bem-estar e de participação social”.

Ana Gaspar reforçou, por seu lado, que a reflexão sobre pobreza e custo de vida deve ser feita com os jovens, e não apenas sobre os jovens, defendendo que a sua participação deve ser séria, respeitadora e consequente: “a participação dos jovens não deve ser apenas uma participação simbólica”.

A representante da Assembleia da República desafiou ainda os jovens presentes a colocar questões difíceis e a partilhar as suas preocupações, sublinhando que cabe aos adultos escutar e refletir sobre aquilo que lhes é transmitido.

 

A pobreza e os seus efeitos no quotidiano

A segunda parte da conferência procurou ir além dos indicadores estatísticos e discutir o que significa, concretamente, viver em situação de pobreza ou enfrentar uma pressão crescente sobre o orçamento familiar.

A conversa, moderada por Bruno Simões, responsável de Public Affairs da UNICEF Portugal, contou com a participação da economista e investigadora Lara Wemans e de Leonor Serra, membro do Grupo Consultivo de Crianças e Jovens da UNICEF Portugal, numa análise à economia nacional e às experiências dos jovens nesta matéria.

Lara Wemans alertou para o contexto económico dos últimos anos, marcado pela pandemia, pela guerra e pelo período inflacionista, que travaram a trajetória de redução da pobreza. Sublinhou também que o aumento do custo de vida é particularmente visível no quotidiano das famílias, mas que a taxa de pobreza deve ser interpretada tendo em conta o facto de ser um indicador relativo: “nada disto justifica uma menor preocupação com o fenómeno”.

A investigadora destacou a importância de olhar para indicadores de privação material e, sobretudo, para a igualdade de oportunidades, lembrando que as condições em que uma criança cresce podem influenciar as escolhas e oportunidades disponíveis ao longo da sua vida.

Ao longo da conversa, defendeu uma visão integrada das políticas públicas, considerando que as prestações sociais são uma parte importante da resposta, mas não podem constituir a única solução. A resposta à pobreza infantil deverá, na sua visão, articular diferentes áreas, incluindo educação, saúde, proteção social, emprego e conciliação entre vida profissional e familiar.

 

Quando falamos de pobreza, não devemos falar só em dinheiro

A perspetiva das crianças e dos jovens esteve no centro da conferência através da participação de Leonor Serra, membro do Grupo Consultivo da UNICEF Portugal, que trouxe a debate a experiência da sua geração e o impacto que o custo de vida tem nas oportunidades disponíveis.

Para Leonor, a pobreza não se resume à falta de dinheiro – está também relacionada com a possibilidade de participar em atividades, praticar desporto, aprender música, fazer visitas de estudo ou simplesmente ter acesso às mesmas experiências que outros jovens: “quando falamos de pobreza não devemos falar só em dinheiro. Falamos em oportunidades e na liberdade de escolha”. 

A jovem sublinhou que o aumento do custo de vida afeta diretamente os projetos de autonomia dos jovens: “queremos ter condições para estudar, trabalhar, ter acesso a oportunidades para conseguirmos sair de casa dos pais e construir uma vida independente, construir o nosso futuro de maneira tranquila e com segurança”.

O debate, aberto aos jovens presentes na plateia, permitiu recolher preocupações relacionadas com a habitação, preços dos alimentos e dos combustíveis, impostos, apoios sociais, o acesso ao mercado de trabalho e as dificuldades em alcançar a autonomia.

No final da sua participação, Leonor deixou uma mensagem dirigida aos decisores: “ouçam os jovens, porque nós é que vamos levar com as consequências das decisões de hoje”.

 

Jovens colocaram perguntas aos deputados

Depois de ouvirem os especialistas e partilharem as suas próprias experiências, os jovens tiveram oportunidade de colocar diretamente as suas questões aos deputados. A terceira parte da conferência foi dedicada ao diálogo entre quatro deputados, representantes de diferentes forças políticas, e os jovens presentes, num debate centrado no impacto do custo de vida e nas respostas que podem ser concretizadas através das políticas públicas.

Entre os temas discutidos estiveram a fiscalidade sobre combustíveis e produtos alimentares, o valor das prestações sociais, o abono de família, a habitação, os salários, o acesso a serviços e as medidas que podem contribuir para reduzir o impacto do aumento do custo de vida nas famílias.

O debate permitiu ainda questionar diretamente os deputados sobre as opções políticas e orçamentais para 2027, reforçando a dimensão participativa do Tenho Voto na Matéria.

 

As políticas públicas têm de agir hoje para garantir o futuro

A conferência terminou com a intervenção de Joaquim Barbosa, deputado e Vice-Presidente da 10ª Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão (CTSSI), que destacou a importância de garantir que as preocupações, experiências e propostas partilhadas pelos jovens ao longo da sessão chegam aos espaços onde são tomadas as decisões: “as políticas públicas têm de agir hoje para garantir o futuro das crianças e jovens”.

Joaquim Barbosa reforçou a ideia de que a pobreza infantil não pode ser entendida apenas como uma questão económica, mas também como uma questão de igualdade de oportunidades, dignidade e futuro. “Não há política pública mais importante do que aquela que garanta a uma criança a possibilidade de ser criança”, afirmou.

O deputado enquadrou ainda o combate à pobreza infantil no percurso de transformação de Portugal nas últimas décadas, lembrando a evolução registada em áreas como a saúde, a educação e a proteção social, mas sublinhando que o caminho não está concluído. Defendeu uma resposta que combine proteção social com a criação de condições para que as famílias tenham mais oportunidades e autonomia, incluindo uma economia mais forte e competitiva, capaz de gerar riqueza e melhores salários. O objetivo, sublinhou, é “garantir que o crescimento da economia se traduz em melhor qualidade de vida para as famílias e melhores oportunidades para as crianças”.

Para mais informação, é favor contactar:
Catarina da Ponte | Vera Lança | press@unicef.pt

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