Desastres relacionados com o clima provocaram 43,1 milhões deslocamentos de crianças em seis anos
NOVA IORQUE
06 out 2023
Nova análise revela que inundações fluviais poderão deslocar quase 96 milhões de crianças nos próximos 30 anos
Desastres relacionados com o clima causaram 43,1 milhões de deslocamentos internos de crianças em 44 países ao longo de seis anos – ou aproximadamente 20 mil deslocamentos de crianças por dia – segundo uma nova análise da UNICEF divulgada hoje.
“Crianças Deslocadas num Clima em Mudança” é a primeira análise global do número de crianças que foram forçadas a sair das suas casas entre 2016 e 2021 devido a inundações, tempestades, secas e incêndios florestais, e analisa as projeções para os próximos 30 anos.
Segundo a análise, a China e as Filipinas estão entre os países que registaram os maiores números absolutos de deslocamentos de crianças, devido à sua exposição a fenómenos meteorológicos extremos, às grandes populações infantis e aos progressos realizados nas capacidades de alerta precoce e evacuação. No entanto, em relação ao tamanho da população infantil, as crianças que vivem em países insulares, como a Dominica e Vanuatu, foram as mais afetadas por tempestades, enquanto as crianças na Somália e no Sudão do Sul foram as mais afetadas por inundações.
“É aterrorizante para qualquer criança quando um incêndio florestal, uma tempestade ou uma inundação feroz se abate sobre a sua comunidade”, refere a Diretora Executiva da UNICEF, Catherine Russell. “Para aqueles que são forçados a fugir, o medo e o impacto podem ser especialmente devastadores, com a preocupação de saber se vão voltar para casa, regressar à escola, ou se vão ser forçados a mudar-se novamente. A mudança pode ter-lhes salvado a vida, mas também é muito perturbadora. À medida que os impactos das alterações climáticas aumentam, o mesmo acontece com as deslocações motivadas pelo clima. Temos as ferramentas e o conhecimento necessários para responder a este desafio crescente para as crianças, mas estamos a agir com demasiada lentidão. Precisamos de reforçar os esforços para preparar as comunidades, proteger as crianças em risco de deslocamento e apoiar as que já foram deslocadas.”
As inundações e tempestades representaram 40,9 milhões – ou 95 por cento – dos deslocamentos de crianças registados entre 2016 e 2021, devido, em parte, a uma melhor avaliação e a mais evacuações preventivas. As secas provocaram mais de 1,3 milhões de deslocamentos internos de crianças, sendo a Somália um dos países mais afetados, enquanto os incêndios florestais provocaram 810 mil deslocamentos de crianças, tendo mais de um terço ocorrido apenas em 2020. Canadá, Israel e os Estados Unidos registaram o maior número.
As decisões que motivam o deslocamento podem ser forçadas e abruptas face ao desastre, ou como resultado de evacuações preventivas, onde vidas podem ser salvas, mas muitas crianças ainda enfrentam os perigos e desafios de serem forçadas a sair das suas casas, muitas vezes por períodos prolongados.
As crianças estão especialmente em risco de deslocamento em países que já enfrentam crises sobrepostas, como conflitos e pobreza, onde as capacidades locais para lidar com deslocamentos adicionais de crianças são limitadas.
O Haiti, por exemplo – já em alto risco de deslocamento de crianças relacionado com desastres – é também assolado pela violência e pela pobreza, com um investimento limitado na mitigação de riscos e preparação. Em Moçambique, as comunidades mais pobres, incluindo as das áreas urbanas, são desproporcionadamente afetadas por condições climáticas extremas. Estes são os países – nos quais o número de crianças vulneráveis em risco de deslocamento futuro é maior e as capacidades de resposta e financiamento são limitados – onde a mitigação do risco, a adaptação, os esforços de preparação e o financiamento são mais urgentes.
Através de um modelo de risco de deslocamento por desastre desenvolvido pelo Centro de Monitorização de Deslocamento Interno, o relatório projeta que as inundações fluviais têm o potencial de deslocar quase 96 milhões de crianças nos próximos 30 anos, com base nos dados climáticos atuais, enquanto os ventos ciclónicos e as ondas de tempestade têm o potencial de deslocar 10,3 milhões e 7,2 milhões de crianças, respetivamente, no mesmo período*. Com eventos climáticos mais frequentes e severos como consequência das alterações climáticas, os números reais serão certamente mais altos.
A UNICEF trabalha com os governos dos países mais vulneráveis para melhor preparar e minimizar o risco de deslocamento, desenvolver e implementar estratégias de adaptação às alterações climáticas e redução do risco de desastres sensíveis às crianças, e conceber serviços resilientes e portáteis para proteger e alcançar as crianças antes, durante e após os desastres, adaptando as soluções para enfrentar as vulnerabilidades específicas do contexto.
À medida que os líderes se preparam para se reunir na Cimeira da COP28 no Dubai em novembro, a UNICEF apela aos governos, doadores, parceiros de desenvolvimento e ao setor privado a tomarem as seguintes ações para proteger as crianças e os jovens em risco de deslocamento futuro e prepará-los, juntamente com suas comunidades:
- PROTEGER as crianças e os jovens dos impactos dos desastres e deslocamentos agravados pelas alterações climáticas, garantindo que os serviços críticos para as crianças – incluindo educação, saúde, nutrição, proteção social e serviços de proteção infantil – sejam sensíveis a choques, portáteis e inclusivos, incluindo para aqueles que já foram deslocados das suas casas.
- PREPARAR as crianças e os jovens para viver num mundo alterado pelo clima, melhorando a sua capacidade de adaptação e resiliência, e permitindo a sua participação na procura de soluções inclusivas.
- PRIORIZAR as crianças e os jovens – incluindo aqueles que já foram deslocados das suas casas – na ação e no financiamento para o clima e os desastres, na política e nos investimentos humanitários e de desenvolvimento, para se prepararem para um futuro que já está a acontecer.
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*Como a definição dos perigos considerados nas projeções é diferente daquela da análise histórica, não é possível comparar diretamente as duas. As projeções também não incluem evacuações de prevenção.
A UNICEF analisou os dados do Centro de Monitorização de Deslocamento Interno (IDMC) para determinar os deslocamentos históricos de crianças ligados a desastres relacionados com o clima e projetou o risco estimado de deslocamento de crianças no futuro usando o modelo de risco do IDMC.
O trabalho foi realizado com o apoio da Fundação Patrick J McGovern.
Para mais informação, é favor contactar:
Vera Lança
press@unicef.pt
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