COVID-19: A maior crise global para crianças em 75 anos de história da UNICEF
NOVA IORQUE/LISBOA
09 dez 2021
No seu 75º aniversário, a UNICEF alerta para o recuo que a COVID-19 está a provocar em praticamente todas as medidas de desenvolvimento para as crianças, incluindo os mais de 100 milhões de crianças em situação de pobreza
“A COVID-19 afectou as crianças numa escala sem precedentes, tornando-se a pior crise a que a UNICEF assistiu nos seus 75 anos de história”, afirmou a agência das Nações Unidas para a Infância num relatório divulgado hoje.
A publicação “Evitar uma década perdida: Acção urgente para inverter o impacto devastador da COVID-19 nas crianças e jovens” destaca as várias formas como a COVID-19 está a desafiar décadas de progresso em áreas-chave da infância como a pobreza, a saúde, o acesso à educação, a nutrição, a protecção infantil e o bem-estar mental. Quase dois anos após o início da pandemia, o impacto generalizado da COVID-19 continua a crescer, aumentando a pobreza, enraizando a desigualdade e ameaçando os direitos das crianças a níveis nunca antes vistos.
"Ao longo da nossa história, a UNICEF ajudou a moldar ambientes mais saudáveis e seguros para as crianças em todo o mundo, com resultados significativos para milhões delas", disse a Directora Executiva da UNICEF Henrietta Fore. "Estes ganhos estão agora em risco. A pandemia da COVID-19 tem sido a maior ameaça para o progresso das crianças nos nossos 75 anos de história. Enquanto o número de crianças com fome, fora da escola, vítimas de abusos, que vivem em situação de pobreza ou são forçadas a casar está a aumentar, o número de crianças com acesso a cuidados de saúde, vacinas, nutrição adequada e serviços essenciais está a diminuir. Num ano em que deveríamos estar a olhar para a frente, estamos a retroceder".
O relatório estima que mais 100 milhões de crianças estão agora a viver em situação de pobreza multidimensional devido à pandemia, um aumento de 10 por cento desde 2019. Isto corresponde a aproximadamente 1,8 crianças por segundo desde meados de Março de 2020. Além disso, o relatório alerta para um longo caminho para recuperar o terreno perdido - mesmo no melhor dos cenários, serão necessários sete a oito anos para recuperar e regressar aos níveis de pobreza infantil pré-COVID.
O relatório evidencia que cerca de 60 milhões adicionais de crianças vivem agora em agregados familiares pobres em comparação com o período antes da pandemia. Além disso, em 2020, mais de 23 milhões de crianças não tiveram acesso às vacinas essenciais - um aumento de quase 4 milhões em comparação com 2019, e o número mais elevado em 11 anos.
Mesmo antes da pandemia, cerca de mil milhões de crianças em todo o mundo sofriam de pelo menos uma privação grave, nomeadamente no acesso à educação, saúde, habitação, nutrição, saneamento ou água. Este número está agora a aumentar à medida que a recuperação desequilibrada da pandemia aumenta as divisões entre crianças ricas e pobres, sendo as mais marginalizadas e vulneráveis as que mais sofrem. O relatório destaca que:
- No auge da pandemia, mais de 1,6 mil milhões de alunos estavam fora da escola devido a encerramentos a nível nacional. Em todo o mundo, as escolas foram encerradas durante quase 80% do período escolar presencial no primeiro ano da crise;
- As condições de saúde mental afectam mais de 13% dos adolescentes com idades compreendidas entre os 10-19 anos em todo o mundo. Em Outubro de 2020, a pandemia tinha interrompido ou alterado significativamente os serviços de saúde mental críticos em 93% dos países em todo o mundo;
- Até 10 milhões de casamentos na infância adicionais podem vira a realizar-se antes do final da década em resultado da pandemia da COVID-19;
- O número de crianças envolvidas em trabalho infantil aumentou para 160 milhões em todo o mundo - um aumento de 8,4 milhões de crianças nos últimos quatro anos. Mais 9 milhões de crianças estão em risco de serem empurradas para alguma forma de trabalho infantil até ao final de 2022, em resultado do aumento da pobreza provocado pela pandemia;
- No auge da pandemia, 1,8 mil milhões de crianças viviam nos 104 países onde os serviços de prevenção e resposta à violência foram gravemente perturbados;
- 50 milhões de crianças sofrem de atrasos de crescimento devido à subnutrição, com possível risco de vida; este número poderá aumentar em 9 milhões até 2022 devido ao impacto da pandemia na dieta das crianças, nos serviços de nutrição e nas práticas alimentares.
Para além da pandemia, o relatório adverte para outras ameaças extremas aos direitos das crianças. Globalmente, 426 milhões de crianças - quase 1 em cada 5 - vivem em zonas de conflito que se estão a tornar mais intensos e a fazer um maior número de vítimas civis, afectando de forma desproporcionada as crianças. As mulheres e raparigas são expostas ao risco de violência sexual relacionada com o conflito. Oitenta por cento de todas as necessidades humanitárias são motivadas por conflitos. Do mesmo modo, aproximadamente mil milhões de crianças - quase metade das crianças do mundo - vivem em países que se encontram em "altíssimo risco" devido aos impactos das alterações climáticas.
Para responder, recuperar e reimaginar o futuro de todas as crianças, a UNICEF continua a apelar:
- Ao investimento na protecção social, no capital humano e no financiamento para uma recuperação inclusiva e resiliente;
- Ao fim da pandemia e à inversão do alarmante retrocesso na saúde e nutrição infantis - inclusive através do aproveitamento do papel vital da UNICEF na distribuição da vacina COVID-19; assim como ao reforço da reconstrução, assegurando uma educação de qualidade, protecção e a saúde mental para todas as crianças;
- À formação da resiliência para prevenir, proteger e dar resposta às necessidades das crianças em crises actuais e futuras - incluindo novas abordagens para acabar com a fome, proteger as crianças das alterações climáticas e responder a catástrofes.
"Numa era de pandemia global, de conflitos em intensificação e de agravamento das alterações climáticas, nunca uma abordagem ‘primeiro as crianças’ foi tão crítica como hoje", disse Henrietta Fore. "Encontramo-nos numa encruzilhada. Ao trabalharmos com governos, doadores e outras organizações para começarmos a traçar o nosso caminho colectivo para os próximos 75 anos, temos de manter as crianças em primeiro lugar na linha de investimento e em último lugar na linha de cortes. A promessa do nosso futuro está estabelecida nas prioridades que fazemos no nosso presente".
Para mais informação, é favor contactar:
Vera Lança
press@unicef.pt
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