As crianças no Sudão viveram “1.000 dias de agonia”
AMÃ
09 jan 2026
Declaração de Edouard Beigbeder, Diretor Regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África
Declaração de Edouard Beigbeder, Diretor Regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África
“Para as crianças do Sudão, o mundo chega com 1.000 dias de atraso.
“Desde que os combates eclodiram em abril de 2023, o Sudão tornou-se uma das maiores e mais devastadoras crises humanitárias do mundo, empurrando milhões de crianças para o limite da sobrevivência. Uma crise profunda de proteção, marcada por violações generalizadas do direito internacional pelas partes em conflito, agravada pela falta de acesso humanitário, tem-se intensificado a cada um destes 1.000 dias de agonia.
“Em 2026, prevê-se que 33,7 milhões de pessoas — cerca de dois terços da população — necessitem de assistência humanitária urgente. Metade são crianças. O acesso das populações afetadas à ajuda vital continua perigosamente limitado em grandes partes do país, agravando ainda mais a crise humanitária.
“As crianças continuam a ser mortas e feridas — apenas esta semana, oito crianças terão morrido num ataque em Al Obeid, no Norte do Kordofan.
“Mais de 5 milhões de crianças foram forçadas a abandonar as suas casas — o equivalente a 5.000 crianças deslocadas todos os dias — muitas delas repetidamente, uma vez que os ataques e a violência as seguem nos seus deslocamentos. Milhões de crianças no Sudão estão em risco de violação e de outras formas de violência sexual, utilizadas como tática de guerra, havendo mesmo crianças com apenas um ano de idade entre as sobreviventes.
“Estima-se que 21 milhões de pessoas enfrentem insegurança alimentar aguda em 2026. A fome já foi confirmada em Al Fasher e Kadugli, com outras 20 áreas nas regiões de Grande Darfur e Grande Kordofan em risco. No Norte do Darfur, epicentro da emergência de subnutrição no Sudão, quase 85.000 crianças com subnutrição aguda grave foram tratadas entre janeiro e novembro de 2025 — o equivalente a uma criança a cada seis minutos. O colapso dos sistemas de saúde, a escassez crítica de água e a degradação dos serviços básicos estão a agravar a crise, alimentando surtos de doenças mortais e colocando cerca de 3,4 milhões de crianças com menos de cinco anos em perigo.
“Por detrás destes números estão vidas marcadas pelo medo, pela fome e pela perda, numa guerra que continua a roubar às crianças a segurança, a saúde e a esperança.
“Apesar das extraordinárias restrições de segurança e de acesso, a ajuda vital continua a chegar às crianças sempre que possível. A UNICEF e os seus parceiros estão a prestar apoio para tratar a subnutrição grave, vacinar contra doenças mortais, garantir o acesso a água potável segura e oferecer proteção e apoio psicossocial às crianças afetadas pela violência e pelo deslocamento.
“Estes esforços permitem manter vivas as crianças nas condições mais difíceis, mas continuam a ser insuficientes sem acesso sustentado, financiamento adequado e uma redução significativa das hostilidades. A ação humanitária pode salvar vidas, mas não pode substituir a proteção que só a paz pode oferecer.
“A UNICEF apela urgentemente a um fim imediato do conflito. Todas as partes devem cumprir as suas obrigações ao abrigo do direito humanitário internacional: proteger os civis, pôr termo aos ataques contra infraestruturas e permitir um acesso humanitário seguro, contínuo e sem impedimentos em todo o Sudão.
“As crianças do Sudão não são estatísticas. Estão assustadas, deslocadas e com fome — mas também são determinadas, criativas e resilientes. Todos os dias lutam por aprender, brincar e manter a esperança, mesmo enquanto esperam que o mundo aja. Pôr fim a este conflito é uma necessidade moral. Não pode esperar.”
Para mais informação, é favor contactar:
Catarina da Ponte | Vera Lança | press@unicef.pt
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