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Gaza: UNICEF apela à criação urgente de corredores humanitários e pede donativos para ajudar crianças

Gaza: UNICEF apela à criação urgente de corredores humanitários e pede donativos para ajudar crianças

LISBOA

30 jul 2025

Mais de 18.000 crianças já morreram. Subnutrição aumentou 180% desde fevereiro. UNICEF precisa urgentemente de apoio financeiro e da abertura de corredores humanitários que permitam levar auxílio aos menores de idade.

As pausas humanitárias em Gaza representam uma oportunidade vital para aumentar o acesso e a entrega de ajuda essencial a mais de dois milhões de pessoas, metade das quais crianças, presas numa crise humanitária sem precedentes.

Desde o colapso do cessar-fogo a 18 de março, a população de Gaza vive privada dos elementos básicos para a sobrevivência, como água, eletricidade e combustível, fundamentais para garantir o funcionamento dos serviços essenciais. As crianças não têm acesso a comida, estão traumatizadas e sem lugar seguro onde se refugiar. Segundo dados do Ministério da Saúde da Palestina, uma em cada três pessoas está em privação alimentar e 80% das mortes por fome reportadas são de crianças.

A ajuda humanitária, para além de ser insuficiente, está constantemente sob ameaça. Desde 19 de maio, data em que os camiões da UNICEF e do Programa Alimentar Mundial conseguiram regressar a Gaza após 78 dias de bloqueio total, a distribuição tem sido marcada por bombardeamentos, falta de combustível, colapso da ordem pública e insegurança extrema. O atual modelo de distribuição, centrado na Fundação Humanitária de Gaza, tem exposto os civis a riscos inaceitáveis: mais de 900 pessoas morreram e quase 6.000 ficaram feridas ao tentarem aceder a alimentos, muitas delas crianças.

Apesar dos obstáculos, a UNICEF mantem-se ativa no terreno. Em julho, conseguiu fazer chegar 147 camiões com ajuda vital a Gaza, incluindo alimentos para bebés, leite e bolachas energéticas. No dia 27, foram transferidos 19.500 frascos de vacinas DTP[i] e leite infantil na fronteira de Kerem Shalom. No entanto, esta resposta, embora crucial, está longe de ser suficiente. A falta crónica de combustível, água, bens médicos e alimentares continua a bloquear a operação humanitária e a condenar milhares de crianças e famílias a um sofrimento extremo.

Por estas razões, a UNICEF Portugal lança um apelo urgente: são necessários 463,8 milhões de dólares adicionais para dar resposta à catástrofe humanitária em Gaza e na Cisjordânia. Com apenas 35% do seu apelo de emergência financiado, a organização está a operar com recursos insuficientes face à dimensão da crise. 

A diretora executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori, apela ao apoio urgente da sociedade civil portuguesa para responder à emergência em Gaza "A cada dia que passa, mais crianças pagam com a vida o preço da inação. A situação em Gaza constitui uma emergência humanitária de proporções históricas que não pode continuar a agravar-se.”

"Estas pausas podem representar um ponto de viragem na resposta humanitária, mas, em continuidade, é vital a abertura de corredores humanitários adicionais e sustentáveis. É possível salvar vidas, mas temos de agir agora", conclui.

Desde o início do conflito, cerca de 90%[ii] da população da Faixa de Gaza foi forçada a abandonar as suas casas. Atualmente, cerca de 88% do território está abrangido por ordens de deslocação forçada, o que empurra centenas de milhares de pessoas para áreas sobrelotadas e sem condições mínimas de sobrevivência. Nos últimos seis meses, mais de 737 000 pessoas foram novamente deslocadas, muitas delas pela terceira ou quarta vez. A escassez de água é alarmante: 95% das famílias não têm acesso adequado a este recurso essencial, o que agrava os surtos de doenças e aumenta a pressão sobre um sistema de saúde já em colapso.

A cada dia que passa sem apoio, a vida de milhares de crianças fica comprometida. Este financiamento é vital para combater a subnutrição galopante, garantir o acesso a água potável, cuidados de saúde, proteção, educação e apoio financeiro às famílias.

O impacto desta guerra nas crianças é inegável. Desde o início do conflito, morreram pelo menos 18.000 crianças palestinianas em Gaza, o que corresponde a uma média assustadora de 28 por dia[iii]. Só na primeira quinzena de julho, morreram pelo menos 198 crianças. A esta violência somam-se a fome e a negligência: a subnutrição infantil aumentou 180% entre fevereiro e junho e 76 crianças já morreram por causas diretamente relacionadas com a fome. Trata-se de uma crise humanitária de grandes proporções, perante o qual o mundo não pode permanecer indiferente.

***

Notas:
A Classificação Integrada da Segurança Alimentar (IPC) é uma iniciativa inovadora multipartida para melhorar a análise de segurança alimentar e nutrição e a tomada de decisão. Utilizando a classificação e abordagem analítica IPC, Governos, Agências da ONU, ONGs, sociedade civil e outros atores relevantes trabalham em parceria para determinar a gravidade e magnitude da insegurança alimentar e nutricional, aguda e crónica, num país, segundo padrões científicos internacionalmente reconhecidos. 

 

[i] Vacina contra a Difteria, Tétano e Pertussis (Tosse Convulsa)

[ii] Estimativa das Nações Unidas

[iii] Dados do Ministério da Saúde Palestiniano

 

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