2050: Novo relatório da UNICEF alerta para desafios marcados por crises climáticas extremas, alterações demográficas e desigualdades no acesso à tecnologia
NOVA IORQUE/LISBOA
20 nov 2024
A infância “está por um fio” a menos que sejam adotadas medidas concretas e urgentes para proteger o futuro das crianças a nível global, alerta o novo relatório "Situação Mundial da Infância 2024: O Futuro da Infância num Mundo em Mudança", documento divulgado hoje pela UNICEF
O futuro da infância está em risco caso não sejam tomadas medidas urgentes para salvaguardar os Direitos das Crianças num mundo em mudança, alerta a UNICEF no seu relatório anual de referência divulgado hoje, 20 de novembro, Dia Universal dos Direitos da Criança.
A publicação do novo relatório "Situação Mundial da Infância 2024: O Futuro da Infância num Mundo em Mudança" (The State of the World’s Children 2024: The Future of Childhood in a Changing World) sinaliza e projeta as três forças globais principais – ou megatendências – que impactarão a vida das crianças até 2050 e depois disso: as alterações demográficas, a crise climática e ambiental e os avanços tecnológicos, três contextos que fornecem indicações-chave sobre os desafios e oportunidades que as crianças verão vir a enfrentar no futuro próximo.
Para Beatriz Imperatori, Diretora Executiva da UNICEF Portugal “as projeções deste relatório mostram que as decisões que os líderes mundiais tomam hoje – ou deixam de tomar – irão definir o mundo que as crianças vão herdar. Criar um futuro melhor em 2050 exige mais do que imaginação, exige ação. Décadas de progresso, especialmente para as raparigas, estão em risco."
A crise climática já é uma realidade e os respetivos efeitos já se fazem sentir, com 2023 a revelar-se como o ano mais quente desde que há registo. Segundo o relatório divulgado hoje pela UNICEF, na década de 2050-2059 as crises climáticas e ambientais deverão tornar-se ainda mais generalizadas, com oito vezes mais crianças expostas a ondas de calor extremas, três vezes mais crianças expostas a inundações fluviais extremas, e quase o dobro de crianças expostas a incêndios florestais extremos, em comparação com os anos 2000.
A nível mundial, as emissões de CO2 atingiram um novo recorde, correspondente a 36,8 mil milhões de toneladas em 2023 (aumento de 1,1% comparado com 2022), sendo que o planeta está 1,1ºC mais quente face a 1880 (a maior parte deste aquecimento ocorreu desde 1975, com uma taxa de 0,15-0,20ºC por década). Junte-se a estes dados o facto de que cerca de mil milhões de crianças em todo o mundo (quase metade do total) vivem em países que enfrentam um risco elevado de risco climático e ambiental, um dado corroborado pelo facto de crianças com menos de 5 anos concentrarem 88% das atuais doenças provocadas pelas alterações climáticas.
Por outro lado, é importante destacar que o impacto destes riscos climáticos nas crianças será determinado pela sua idade, saúde, situação socioeconómica e o seu acesso a recursos. Por exemplo, uma criança com acesso a um abrigo resistente ao clima, infraestruturas de refrigeração, cuidados de saúde, educação e água potável, tem uma maior probabilidade de sobreviver a choques climáticos em comparação com uma criança que não tem acesso a esse tipo de recursos.
De acordo com a Rede de Serviços de Planeamento e Prospetiva da Administração Pública, RePLAN, 2024, no caso de Portugal é de sublinhar que:
- A diferença entre a temperatura média do ar em 2019 (15,6ºC) e em 1971 (14,1ºC) é de 1,5ºC;
- Até 2050, antecipam-se aumentos de temperatura no país iguais ou superiores a 2ºC;
- A redução da precipitação média anual no país poderá atingir valores entre os 20% e os 40%, com o sul do país a ser a região mais afetada.
Em relação às mudanças e evolução demográfica para os próximos anos, prevê-se que a África Subsariana e o Sul da Ásia terão as maiores populações infantis na década de 2050. Embora ainda elevado, o número de crianças na população em África deverá cair abaixo dos 40% – quando estava situado nos 50% nos anos 2000. Na Ásia Oriental e Europa Ocidental, a percentagem de crianças cai para menos de 17% do total da população, comparado com os 29% e 20%, respetivamente, nos anos 2000.
Num contexto macro, em 2050, a população mundial deverá atingir os 9,7 mil milhões de pessoas, sendo que a população adulta deverá crescer para cerca de 7,5 mil milhões. Para o mesmo ano, prevê-se que o número de crianças seja sensivelmente o mesmo, que deverá situar-se entre os 1,7 mil milhões e os 3 mil milhões.
Em Portugal, os dados do RePLAN 2024 apontam para muitos desafios que o país terá de enfrentar nos próximos anos, principalmente tendo em conta que:
- Atualmente, Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, com 185,6 idosos por cada 100 jovens - em 2050, o índice de envelhecimento subirá para 297,2 idosos por cada 100 jovens;
- A população residente em Portugal tem vindo a aumentar desde 2019, em resultado do saldo migratório positivo, antecipando-se até 2050 uma população mais diversa do que atualmente, um cenário que pode antecipar um potencial crescimento de tensões racistas e xenófobas;
- O interior do país tem vindo a assistir a uma desertificação cada vez mais acentuada devido aos efeitos combinados de emigração, do êxodo rural e do envelhecimento da população residente.
A publicação sinaliza ainda que as novas tecnologias de ponta da chamada ‘revolução digital’ – como a Inteligência Artificial (IA) – apresentam tanto oportunidades quanto riscos para as crianças, uma vez que estas interagem com IA incorporada em aplicações, brinquedos, assistentes virtuais, jogos e softwares educativos. Tendo em conta este cenário, a UNICEF salienta que continua a prevalecer uma lacuna digital significativa, principalmente tendo em conta que, em 2024, mais de 95% das pessoas nos países com rendimento elevado estão ligadas à internet, comparado com quase 26% nos países de baixo rendimento.
Uma grande percentagem de jovens em países de rendimento baixo e médio enfrenta dificuldades para adquirir competências digitais, uma realidade que irá afetar a sua capacidade de utilização de ferramentas digitais de forma eficaz e responsável em contextos de educação e nos futuros locais de trabalho. Estas barreiras estão frequentemente ligadas ao contexto socioeconómico, género, língua e acessibilidade.
Em Portugal, ainda segundo o RePLAN 2024, em 2021, 96% dos lares tinham acesso à internet de banda larga, sendo um dos países com maior introdução de internet móvel, com uma taxa de utilização de 92% da população. Efetivamente, a hiperconectividade portuguesa tem tido um impacto significativo em várias áreas da sociedade, nomeadamente na educação, nos sectores público e privado e no entretenimento. Estima-se que a transformação digital representará 50% de todo o investimento nacional em tecnologias de informação e comunicação (TIC) até ao final de 2025 e, provavelmente, continuará a aumentar nas próximas décadas. O país apresenta um grande potencial para se tornar um líder em áreas como a IA, a cibersegurança, as energias renováveis e a mobilidade sustentável.
Hoje em dia, assiste-se a um aumento dos riscos online, especialmente para as crianças, o que torna imperativa a criação de um ambiente digital seguro e regulado para os mais jovens.
Mas o novo relatório da UNICEF também traz boas notícias. Espera-se um aumento na esperança de vida à nascença e os progressos no acesso das crianças à educação nos últimos 100 anos também deverão continuar a verificar-se, sendo esperado que quase 96% das crianças em todo o mundo concluam, pelo menos, a educação primária nos anos 2050, contra 80% nos anos 2000. Da mesma forma, com maiores investimentos em educação e saúde pública, e com uma proteção ambiental mais rigorosa, o relatório afirma que os resultados para as crianças poderão melhorar significativamente. Por exemplo, a diferença de género no acesso à educação poderá diminuir, e a exposição a perigos ambientais ser reduzida.
A "Situação Mundial da Infância 2024: O Futuro da Infância num Mundo em Mudança" sublinha ainda a importância de colocar os direitos das crianças, tal como são definidos na Convenção sobre os Direitos da Criança, no centro de todas as estratégias, políticas e ações. Nesse sentido, o relatório apela para que se enfrentem os desafios e se tire proveito das oportunidades colocadas pelas três megatendências, através de:
- Investimento em educação, serviços e cidades sustentáveis e resilientes para as crianças;
- Expansão da resiliência climática em matéria de infraestruturas, tecnologias, serviços essenciais e sistemas de apoio social;
- Garantia de conectividade, design, conteúdos e experiências seguras para todas as crianças em contexto digital.
No âmbito do lançamento do relatório anual, a UNICEF Portugal promove hoje, 20 de novembro, entre as 16h00 e as 17h00, uma mesa-redonda com transmissão online, sob o tema "Futuro em construção – infância e tendências globais 2050". Esta iniciativa reúne os especialistas Germano Almeida, Luísa Schmidt e Nuno Miguel Guerreiro, sob a moderação de Beatriz Imperatori, para uma reflexão conjunta sobre os desafios globais e as ações necessárias à proteção dos direitos das crianças num mundo em transformação.
“As mudanças que se adivinham irão afetar todas as crianças em todo o mundo. Mas a transformação já começou. É por isso hoje que temos que inovar e transformar. O tempo da criança é hoje. Prever e prevenir, com política pública de medio e longo prazo tem que ser acompanhada por ações hoje. Porque o futuro começa hoje. Esta reflexão pretende sobretudo, inspirar medidas e ações concretas que possam por um lado prevenir e mitigar as consequências negativas, mas por outro que garantam que os ganhos que conquistamos ao longo das últimas décadas se mantêm e se reforçam,” disse Beatriz Imperatori.
Para mais informação, é favor contactar:
Catarina da Ponte | Vera Lança | press@unicef.pt
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